julho 02, 2008

Cláudia Amandi_



Restos,
papéis cortados em máquina, 2006 (35 Desenhos, 24x30 cm)




(...)
As diferentes imagens (...) incidem sobre a ideia da acumulação e repetição do gesto e de um elemento que se evade de uma origem para se mover em relação a si próprio, ora recuando a níveis puramente abstractos, ora avançando para a sugestão de paisagens e aglomerados (enxames, populações, cardumes folhas, bactérias). Em cada nova posição ou movimento, o conjunto desses elementos forma novos campos de possibilidades que remetem para uma dupla condição: o movimento que transforma a qualidade das coisas e, simultaneamente, que assegura a permanência de uma ordem original e de uma memória inscrita algures, e que parece na eminência de se revelar. Cada desenho, ou cada "quadro" submete a percepção à visão onde as pequenas figuras se redistribuem sem alterar o território inicial, como a revelação de camadas de um corpo ou instantes de um tempo persistente. Na imagem ameaçadora de milhares ou milhões de elementos em deriva no espaço subsistem algumas ambiguidades inquietantes.

(...)
Relativamente a outros trabalhos anteriores, (...) mantém presente o sentido da repetição ritualizada de gestos e movimentos que evoca a produção de um estado de consciência alternativo, que funciona como um tempo suspenso entre o vazio e a densidade de ideias, formas e palavras.

2006,PFA


In,"Vários milhares de milhões de milhares. Imagens para um corpo adjacente", Paulo Freire de Almeida,texto do catálogo da exposição: apagar, recomeçar, esvaziar, repetir, deslocar, de Cláudia Amandi,Cubic-arte contemporânea, Junho 2006.

junho 13, 2008

Emílio Remelhe_



Sem título
[Janela, Convento Corpus Christi, fachada Norte], 2005



Diz Umberto Eco que "o autor não deve interpretar, mas pode explicar porquê e como escreveu".
Este exercício foi realizado no contexto de uma ideia-chave aglutinadora de diversas unidades de trabalho, o binómio Polimento-Desgaste.

zero
O exercício teve lugar no Convento Corpus Christi. Uma operação de manutenção da fachada do edifício concentrou-me na janela do atelier simulado. A janela foi lavada com jacto de água e a pressão gerou infiltrações, inundando, no interior, o parapeito. Da evaporação da água restou o depósito dos resíduos. A diversidade de ocorrências, memórias, começaram a disputar a enunciação (marcas inerentes à morfologia, à localização, à nomeação, etc). Num segundo momento, reuni alguns dados sobre o significado e raíz etimológica da palavra janela [na língua portuguesa, janela, lexema oriundo da língua latina (januella) é abreviatura de porta (janua); curiosamente, a palavra que no latim exprime o conceito de janela com as marcas semânticas que lhe determinamos é fenestra e resultou, no português, em fresta (abertura estreita em parede; fenda); noutra via, a pertinência do lexema window, etimologicamente relacionado com vento (wind) - esta janela está localizada na fachada Norte do edifício]. Tenho vinculado, recorrentemente, os termos da acção às redes lexicais e respectivas teias conceptuais. Entretanto, ganhou visibilidade o plano da acção em si mesmo, como reacção à ocorrência que despoletara este processo: a devolução (tão prosaica quanto metafórica) dos resíduos à origem. Para os fixar, pensei num material de uso corrente, na fita autocolante. Na marcação recorri ao sinal "x", marcado por uma grande dispersão em diferentes âmbitos de utilização (gráfico, alfanumérico; usado, nomeadamente, na construção civil - simples ou composto, mediante desenho ou colagem - para sinalizar a presença de vidros recém instalados.

um
A acção teve a duração de vinte minutos e organizou-se na concatenação dos seguintes actos mediados: subir a mesa > agarrar a fita > desenrolar a fita > rasgar a fita (com os dentes caninos) > pousar o rolo de fita na mesa > colar a fita sobre o parapeito recolhendo detritos > transportar os detritos na fita > aplicar a fita no vidro > descer da mesa >> (procedimento repetido, iniciado o processo de marcação no vidro superior esquerdo e terminado no vidro inferior direito). Na base destas acções compostas podemos encontrar acções de base, como subir, apoiar, agarrar, puxar, desenrolar, estender, rasgar, justapor, transportar, sobrepor, colar, baixar, levantar, descer.

dois
No plano da monitorização, e num primeiro momento, foi documentada a lavagem da janela [(várias sequências fotográficas e fílmicas (ex. filme s/ som com duração de 1´35´´)], documento periférico relativamente ao processo.
Antes de empreender a acção, foi fotografado o parapeito (evidenciando os resíduos), a janela, a mesa, o relógio e a fita adesiva. Uma vez finalizada a acção, foi fotografado o objecto resultante. Noutros exercícios experimentei articular os planos de acção e de monitorização de forma diferente, intercalando-os, desenvolvendo-os com maior ou menor exaustão; aqui, o registo visual antecedeu e sucedeu o conjunto de actos, numa assistência documental mínima.

2008,ER

http://www.youtube.com/watch?v=B-I2KotxnBc

maio 04, 2008

J. Jorge Marques_




Superficial#2.1
marcador permanente sobre papel, 30x24 cm, 2008



Este projecto está centrado em sete desenhos (4+3) e na repetição do processo de os desenhar. Na realidade são sete desenhos feitos do mesmo modo, com o mesmo número de camadas, o mesmo número de linhas, da mesma dimensão e terão levado aproximadamente o mesmo tempo a fazer. Deveriam ser exactamente iguais. Menos um.

Percebo nestes desenhos a importância do processo e o modo automático e quase hipnótico como se desenvolve a imagem. A imagem não é complexa, pode resultar complexa, e o compromisso inicial com o desenho tem muito que ver com o modo como o corpo interpreta os movimentos regulares e sistemáticos do processo e obedece á disciplina do próprio desenho. Os desenhos deveriam ser exactamente iguais.

Ao mesmo tempo o processo desenvolve uma espécie de falência dele mesmo, à medida em que os marcadores vão perdendo as propriedades de marcar.
O desenho faz-se desenhando, transformando o conteúdo do processo no conteúdo do próprio desenho.

2008,JSM

abril 14, 2008

Marlene Vinha_




Retratos soprados
Papel cebola, extender base, plumbagina, sopro, 50x50cm, 2008




“Desenho processual é aquele no qual o processo se torna no desenho em si mesmo.
O esforço está em, através da acção, fazer aparecer o desenho no suporte e fazer sobressair as qualidades inerentes aos materiais usados.

Este trabalho procura explorar o desenho como reacção de acções que estão enraizadas e automatizadas no corpo, nomeadamente a capacidade que o acto da respiração tem na criação de um enunciado visual.

Usei o desenho como meio de analisar a relação entre o corpo e os seus aspectos funcionais, e como técnica para inscrever num suporte o resultado dessas funções.

Em seguida, através da técnica da serigrafia, imprimi estes retratos num suporte, e soprando grafite em pó, activei a imagem do retrato nele impressa.”



Os (meus) retratos foram realizados por amigos através de um programa disponível na Internet usado para fazer retratos robots (http://flashface.ctapt.de/).

2008,MV

fevereiro 29, 2008

Patricia Azevedo Santos_




Sopro
Combustível queimado sobre papel, (5) 100x70cm, 2005/2008




Este é um trabalho sobre o corpo, sobre a falência do corpo, sobre a sua fragilidade e exposição sistemática às agressões, à sujidade; à sua corrosão, à sua corrupção, às patologias respiratórias, à carência e falta de ar.

Procurei encontrar um paralelismo entre corpo e suporte do desenho, o papel, enquanto lugares expostos de contaminação, de encontro, de contacto. Procurei auscultar a respiração e defini o sopro como metáfora do meu corpo. Desenhar tornou-se assim, contaminar.

Desenhei com o meu sopro como resistência, “usei o ar dos meus pulmões para desenhar”; usei a escapagem de automovel como metáfora do meu sopro e o papel em substituição do meu corpo.

fevereiro 06, 2008




Mobilidade relativa
Impressão sobre papel,2007


Interessaram-me as características gráficas da técnica laboratorial da electroforese na comunicação dos seus resultados, que (necessariamente) assumem uma notação gráfica, – do seu (ar)rasto e acumulação –, da forma, da densidade, da imagem e do desenho.
Para que os resultados complexos de um processo de decomposição molecular pudessem assumir uma codificação visível o desenho aparece. E a partir desse desenho se estrutura todo um raciocínio por imagens que permite descodificar esses mesmos resultados que, de outra forma, vislumbrar-se-iam inatingíveis porque inacessíveis à experiência cognoscitiva.

Na criação de uma metalinguagem interdisciplinar que transpõe as tradicionais fronteiras entre a Arte e a Ciência, um novo espaço de experimentação (partilha fundamental entre as duas áreas de conhecimento) surge, e as codificações e os procedimentos científicos (os géis de electroforese), adquirem uma nova dimensão no momento em que são desvinculados do seu contexto original e, deslocados, são trazidos para uma dimensão de outra ordem, a estética, ao se apresentarem enquanto imagens, apenas imagens.
Sob o escrutínio do olhar estético, da Arte, expostos enquanto objectos artísticos autónomos, descontextualizados da sua função de instrumento científico, deslocados do seu lugar de arquivo, os géis, assumem uma presença gráfica, e a complexidade dos seus significados científicos dá agora lugar à delicada beleza da malha visual do (seu) desenho, ténue e volúvel.

2006/07,PAS

janeiro 19, 2008

Bento Duarte_



Beijo o beijo dos riachos,
(work in progress),Tinta sobre tela,(2) 200x200cm, 2004/2005


Sobre o tempo real

Muitos processos ou práticas de desenho começam precisamente pelo entendimento do próprio corpo e o modo como encontramos o sentido em cada actuação.
As acções do corpo como actuações sobre a matéria do desenho decorrem de duas formas. Em primeiro lugar a partir das aprendizagens do corpo; em segundo lugar pelo comportamento das matérias como efeito dos próprios processos.
As aprendizagens do corpo fazem-se a partir das repetições, o comportamento da matéria faz-se a partir dos processos.
O tempo real é o tempo que decorre destas duas aprendizagens.
O efeito performativo da obra é aquele que decorre do tempo real e que concretiza todos os aspectos da obra.


2005,JSM

janeiro 02, 2008



Desenho e processo

(1)“É interessante que as tensões de forças dentro do plano da folha do desenho a existir, além de o definir, de início, como uma entidade activa, permitam desencadear um diálogo entre ele mesmo e quem desenha. A presença da folha de papel antes de ser desenhada (ou escrita) resulta disto mesmo: transpomos de nós próprios para a superfície a desenhar, numa identificação simbólica de equivalência, e, depois, ao desenhar, desencadeamos uma relação física e afectiva com todo o processo de transformação que a folha, o nomeado Plano Original , vai sofrendo.”

(2)“Ao procurar definir como se entende o que é desenhar, é importante ter presente a entidade activa que é o plano de trabalho, a superfície sobre a qual se desenha, para perceber que qualquer colocação de um elemento, por mais simples, sobre a folha, vai acender todas as transferências abstractas ou simbólicas que fazemos, mesmo antes de ela conter qualquer grafismo desenhado.”

(3)“O traço é a própria “história” do movimento da mão sobre a folha de papel, e de todos os acidentes e acasos que possam acontecer durante o seu percurso.”



M. Madeira Rodrigues, Ana Leonor, "O que é Desenho", 1ª edição, Quimera, 2003.


Op.Cit,
(1)pág. 59-60
(2)pág. 62
(3)pág. 58